A eleição presidencial de 2022 tem uma característica que nunca tivemos oportunidade de testar. Esta é a primeira disputa desde 1989 em que teremos o ocupante do cargo de presidente concorrendo à reeleição juntamente com um ex-presidente da República. Por serem amplamente conhecidos pelos eleitores, Lula e Bolsonaro largam na frente dos demais candidatos. Os eleitores conhecem bem os atributos, os pontos positivos e negativos e a forma de governar de cada um. Quanto mais conhecem, mais os eleitores têm certeza da decisão eleitoral, logo, menores são as chances de a campanha promover inflexões significativas nas curvas de intenção de voto.

Apesar do alto grau de conhecimento (96% conhecem Bolsonaro, e 98%, Lula, segundo o DataFolha 22 a 23/6), as pesquisas de intenção de voto, neste momento, carregam um grau de imprecisão, fruto da desatenção dos eleitores sobre o processo eleitoral já em curso. Muitos só prestarão mais atenção a partir de agosto, quando começa a campanha na TV e no rádio. Para entender um pouco o valor da informação na disputa deste ano, produzi três gráficos, a partir dos dados do DataFolha da semana passada.

No primeiro deles, plotei os dados da pesquisa espontânea, aquela em que os eleitor é perguntado em que deverá votar, sem que os nomes dos candidatos sejam apresentados. Em tese, a resposta espontânea tende a captar melhor os votos já cristalizados ou eleitores mais atentos ao processo eleitoral. Para trazer mais informação sobre a pergunta, fiz o gráfico considerando a faixa de renda dos eleitores.

Repare no gráfico abaixo que aqueles que respondem “não sei” em que vão votar variam de 17% a 31%. O menor percentual ocorre entre os eleitores de maior renda, enquanto os que declaram renda de 2 salários mínimos registram maior percentual de “indecisos”.

Outro dado que merece ser destacado. Até a faixa de 5 a 10 salários, Bolsonaro e Lula apresentam tendências apostas. O petista vai bem entre aqueles de menor renda e mais indecisos, enquanto Bolsonaro vai melhor entre os de maior renda e com menores percentuais de indecisos. Na faixa “acima de 10 salários”, os dois candidatos apresentam percentuais mais próximos, indicando que há um embate mais acirrado dentro desse grupo, também com menor índice de indecisos.

Agora compare o gráfico acima com a pesquisa estimulada, ou seja, quando o entrevistador apresenta quem são os candidatos, método que implica na transferência de uma informação importante para os eleitores. Na estimulada, como podemos ver no segundo gráfico, o percentual de indecisos cai fortemente, variando de 0% a 5%. Lula é quem mais ganha novos eleitores, com um aumento de 13 pontos percentuais na faixa dos eleitores de menor renda.

Na segunda faixa de renda (2 a 5 SM), o petista ganha mais 7 pontos percentuais, contra 4 pontos para Bolsonaro. O presidente Bolsonaro, contudo, ganha 6 pontos percentuais entre os eleitores de maior renda (acima de 10 SM) e que, em tese, já apresentam menores taxas de indecisos.

Esses dados sinalizam alguns pontos. O primeiro deles. Os eleitores conhecem os candidatos mas, boa parte, ainda não é capaz de lembrar do nome do seu candidato preferido. Esse fenômeno ocorre principalmente entre aqueles de menor renda, base eleitoral com forte presença do voto a favor de Lula. Bolsonaro consegue melhor desempenho no grupo acima dos 10 salários, entre a espontânea e a estimulada.

O segundo ponto é que o início da campanha no rádio e na TV deverá promover uma aproximação dos dados da espontânea com a estimulada, com destaque para os percentuais da favor de Lula e, em menor grau, a favor de Bolsonaro. Isso ocorre pela perfil dos eleitores dos dois candidatos. O petista tem mais eleitores que acompanham pouco o processo eleitoral neste momento do que o presidente Bolsonaro. Por outro lado, não podemos deixar de mencionar que eleitores menos atentos hoje ao processo eleitoral são também eleitores que, de algum modo, ainda podem ser mobilizados por novas informações ao longo do processo. A dúvida é: será que eles ainda mudam de posição? Hoje as pesquisas indicam que até 70% afirmam que já estão certos da sua “decisão”. Restam os outros 30%.