Se você é estudante de jornalismo ou um jovem repórter, muito provavelmente já ouviu falar em “Jornalismo de Dados”. Já ouviu, inclusive, a discussão recorrente de que esse jornalismo seria nada além do que sempre se fez: contar histórias utilizando dados (quantitativos ou não).

Em outra oportunidade, publiquei um artigo, hoje já bem antigo, confesso, que tenta separar um pouco o que sempre fazíamos no jornalismo e o que de fato poderia ser classificado como Jornalismo de Dados. Foi uma primeira tentativa de conceituar o Jornalismo de Dados. Hoje sabemos que novas perspectivas surgiram mas que, a meu ver, não alteraram a essência do argumento que defendi.

Neste post, apresento duas dicas de como fazer uma reportagem baseada em dados. Sempre que participo de algum curso, essa é uma pergunta recorrente: por onde começar? A resposta aqui considera que você já domina alguns métodos e ferramentas de extração e análise de dados. Dessa forma, a resposta é muito mais sobre o método para iniciar uma apuração e produção de uma reportagem baseada em dados.

Vamos lá.

Há dois percursos possíveis para produzir uma reportagem baseada em dados.

O primeiro deles: tenha uma boa pergunta. Aqui, o Jornalismo de Dados não se diferencia muito do jornalismo convencional. Ter uma pergunta é um primeiro passo para orientar a nossa busca por informações (dados) que poderão ou não responder à pergunta que você formulou.

O segundo percurso: tenha uma base de dados e identifique um padrão, isto é, determinado comportamento dos dados pode sugerir uma possível resposta para uma possível pergunta. Aqui pergunta e resposta quase que caminham juntas e, portanto, a sua curiosidade e empenho são fundamentais. Como quase sempre mapeamos bases de dados com alguma proximidade com os temas da agenda pública, essa “possível pergunta-resposta” muito provavelmente poderá render boas histórias sobre um assunto de interesse dos seus leitores.

Diante disso, temos, a meu ver, dois percursos para produzir uma reportagem baseada em dados. A imagem abaixo tenta dar conta disso.

O esquema ilustrado na imagem é apenas uma tentativa de ter uma visão mais clara possível de como podemos produzir reportagem baseada em dados. É importante ressaltar que, em cada etapa, temos diversas subetapas. Exemplo, na fase de Análise de Dados está prevista a limpeza e padronização da sua base. É muito comum as bases terem uma série de problemas, erros e imprecisões que exigem do jornalista de dados uma boa soma de tempo para organizar tudo isso.

A fase da Pauta, embora possa parecer trivial para quem é do jornalismo, também implica em saber de algum modo pensar a partir de dados. Não é qualquer pergunta que pode ser feita e que pode ser respondida por meio de dados quantitativos, por exemplo.

A depender da natureza do problema que a sua pauta procura investigar ou responder é possível que você tenha que acrescentar novas bases ou mesmo substituir por bases que não tratem necessariamente de dados quantitativos. Hoje, exemplo, a análise de discurso pode ser feita também a partir da análise e novas técnicas de identificação de padrões etc.

Por fim, a fase da Reportagem implica muitas vezes buscar personagens que estão direta ou indiretamente relacionados aos dados e padrões que você identificou. Nesse caso, refiro-me a pesquisadores, especialistas no tema que você está tratando e pessoas que vivem a experiência do tema tratado na reportagem. Os chamados especialistas ajudarão na explicação dos dados e padrões, enquanto os personagens contribuem para humanizar suas análises, afinal, embora seja jornalismo de dados, continua sendo jornalismo baseado em histórias.

Boa sorte!